NA CINZA DAS HORAS

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Domingo, Novembro 15, 2009

Bife cru

Quando permiti àquela canção tocar no rádio, regressou tudo. Antes, durante e depois, todos os sentires saudosos, todo o incómodo e o querer não querido por ninguém.

Fosses tu Pavlov, a canção era a sineta que me faz salivar (é; faz).

Ainda não sendo cão, e não sendo a canção sineta (nem tu Pavlov), ela toca e coração dói da mesma forma que outrora, quando tu eras presente em mim. É na mesma medida que viaja pelos preâmbulos da inconsistência, pelos danos que uma preguiça cansada causou.

Que é o mesmo que dizer, estou classicamente condicionada.
E vou deixar de ouvir as minhas favoritas canções por isso?

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Diz-me se assim não é

A nossa história merece ser contada, acho eu. Por um exímio contador de histórias, para soar ainda melhor. A nossa história não é bonita, não é arrebatadora. Mas é de amor. É tanto de amor, meu bem. (Nunca antes te havia chamado meu bem. Soube a doce, amor; repetir-me-ei). A nossa história é meio surreal, tem trechos divinos e trechos endemoninhados que se contrabalançam num tropeço desajeitado… e como me atrevo eu a desejar que essa nossa história se conte, se o seu fim é tão longínquo, tão incerto…? É uma história que acaba esquisitamente; convenhamos, ninguém gosta de maus finais, quanto mais finais esquisitos… e os finais em aberto são um tão grande cliché que quase perco a vontade de ansiar que nos contem.

Meu bem, a nossa história merece registo. Mesmo que neste enredo eu seja Pocahontas e tu John Smith, esta história não se pode perder no tempo, no vento. Quero guardá-la na terceira pessoa, escrita por um punho que desenha palavras que encaixam na perfeição… não te parece que merecemos algo assim?

Já nem me inquieta o desfecho. Que alguém nos registe, por favor. Eu preciso.

Quarta-feira, Julho 29, 2009

Requerimento à tua pessoa

Amor, faz o favor de me procurar.
É uma ordem? Nim.
Perdoa-me a petulância, mas tardas tanto. Tanto.
Já me exaustei na espera.

Por isso, procura-me. Conversa-me, cerca-me. Encontra-me, encontra-nos.
Amor, faz isto. Pela tua saúde, faz isto.
(já)

Quarta-feira, Julho 01, 2009

15 de Março de 1990 (22:37h)

Se num porvir distante esse que é o Deus das coisas todas voltar a cruzar os nossos caminhos divergentes num compromisso sem antecedentes reais, eu dirigirei os meus pungentes “aleluias” aos céus inteiros, em acções de graças mil.
Se durante o decorrer dos anos gloriosos que compõem a minha e a tua existência existir um momento de divina perfeição, em que o teu beijo me inunde os poros como um fogo antiquadamente inextinto, eu derramarei lágrimas de gratidão Àquele que me proporcionou tal esperada recompensa.
Se em algum ponto do tempo que ainda falta correr, eu ler nos teus olhos arrependimento genuíno pelo sensato ponto final, e tal leitura fiel se fizer acompanhar de palavras roucas, tuas e confirmativas, a minha alma rejubilará de gozo e se prostrará, no segredo de um quarto.
Se, como ditam as regras, as vozes do mundo, as multidões espectadoras de relações, isso ainda não tiver tido término, isso que tivemos, que fundámos, que saboreámos e vivemos até ao fundo ainda não tiver acabado, o meu rosto será iluminado de um riso eternamente radiante e esplêndido, de alegria intensa e febril.
Se. Se mil ocorrências se derem no sentido de regressares ao meu peito, acompanhadas de mil transformações do carácter teu, juntamente com mil confirmações e provas e autenticidades por ti levadas a cabo… Bem, aí esse que é o Deus das coisas todas deve mesmo ter um plano para mim e para ti, um que nos anexe por largas perenidades.

Como eu abomino condicionais.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Apetite de saudade

Apetece-me ter-te. Apetece-me abraçar o teu corpo grande, de costas largas, e encharcar o teu pescoço de beijos mil. Apetece-me arrepiar-te segredando-te palavras ao ouvido, ver-te contrair num riso de cócegas súbitas. Apetece-me beijar-te os lábios grossos, à grande e à francesa; apetecem-me os teus beijos que se prolongam por muito tempo. Apetece-me cheirar o teu perfume, espalhado pela tua roupa limpa e pelas tuas mãos. Ah, sim, apetece-me dar-te as mãos, brincar com a diferença que há entre o tamanho das tuas e das minhas mãos, passear contigo pela rua e rir-me muito das tuas histórias infinitas. Apetece-me chamar-te namorado, e enviar-te carinhos disfarçados de mensagens escritas. Apetece-me tudo isto, talvez ainda mais por agora não me ser lícito.

Amor, fazes-me tanta falta.
(posso chamar-te assim, agora que não o és?)

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Tradução dum choro nocturno

Não foi amor à primeira vista, nem foram capacidades premonitórias, mas quando te vi pela primeira vez o meu peito apertou-se. Nem sei bem porquê, os teus olhos esbarraram propositadamente com os meus e eu senti o peito claustrofóbico no seu batimento cardíaco subitamente descompassado, desde a primeira vez que me deparei contigo. Lembro-me como se tivesse acabado de acontecer. Eu, tão menina, tão absorvida pelo nervoso da responsabilidade, vestindo capas de riso e descontracção no improviso daquele momento. Tu, tão senhor do mundo que te rodeava, perscrutando-me o ser com olhos impávidos, serenos e frios, numa avaliação constantemente incómoda. Estavas sentado num muro baixo e discreto, aguardando funções, e olhando-me de modo banal, tão banal que nem recordas esse momento. E o meu peito todo enrolado nele próprio, todo desarrumado na sua torácica caixa, implorando que tal par de olhos rasgados me largasse de uma vez só.

(…)

A partir daí foi só uma repetição deste processo, a tua confiança avassaladora sobre mim, avaliando o meu ser ao milímetro, sem pudor nem escrúpulos, e a minha indiferença teatral, disfarçando extremamente mal o incómodo que os teus olhos causavam. O tempo foi correndo e o desconforto transformou-se numa fonte de saborosa inquietação, fonte doce e de aprazível perdição. O toque das tuas mãos na minha pele, que outrora fora cuidado e muito pensado, passou a ser inusitadamente impertinente e arrepiante, intruso nos meus poros que queriam a todo o custo pertencer-te. A voz anteriormente cordial e politicamente correcta passou a abrir-se em rasgos de risos francos e verdades soltas sem receio das consequências. Os olhos avaliadores ignoraram essa condição e passaram a irradiar ternura, veracidade, pureza de alma. A pertinência da tua presença onde eu estivesse era cada vez mais evidente e a certeza do meu gargalhar a embalar as tuas histórias era cada vez mais óbvia. A derradeira prova, porém, deu-se um ano depois daquele primeiro (de muitos) apertos cardíacos, quando o teu perfume envolveu a minha alma até ao seu âmago e eu percebi que estava apaixonada. E não me refiro apenas ao perfume que sai do teu frasquinho de vidro azul, mas ao perfume da tua roupa lavada, ao bom cheiro do teu hálito fresco, à fragrância do sabão que perdura todo o dia no teu corpo.

(…)

Um ano e meio depois o coração continua a apertar-se como daquela primeira vez. Acontece sempre que te revejo, que te reencontro, que te abraço e te sinto os músculos tensos de saudade, que te inalo para dentro da minha alma repleta de um amor antigo, que te entrego os meus lábios desejosos da pele macia do teu rosto inteiro. Eu nunca teria dito, nem confirmado, que desde aquele primeiro momento olhos nos olhos tudo se desenrolaria qual história de Hollywood entre os dois de nós. Deixo cair uma lágrima fugidia. Tenho saudades tuas e um coração dependente do teu abraço quente. Bastava-me a tua pessoa, aqui, agora, para me alimentar do amor crescente que nos liga os passos, todos os dias. Até ao fim de tudo.

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

Viagens de comboio

Pouso o pensamento sobre o teu ombro e descanso.
Sinto os teus lábios cheirarem-me a pele e recebo um beijo do teu nariz na testa. Envolves o meu corpo com o teu corpo e acaricias-me a tez de forma tão doce que até duvido que sejam as tuas grossas mãos a distribuir tais carícias.
Os membros relaxam, totalmente. Seguras-me e eu confio. Porque te amo.


(Porque as nossas bem-aventuranças precisam de mais destaque em mim)



urna

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