Não foi amor à primeira vista, nem foram capacidades premonitórias, mas quando te vi pela primeira vez o meu peito apertou-se. Nem sei bem porquê, os teus olhos esbarraram propositadamente com os meus e eu senti o peito claustrofóbico no seu batimento cardíaco subitamente descompassado, desde a primeira vez que me deparei contigo. Lembro-me como se tivesse acabado de acontecer. Eu, tão menina, tão absorvida pelo nervoso da responsabilidade, vestindo capas de riso e descontracção no improviso daquele momento. Tu, tão senhor do mundo que te rodeava, perscrutando-me o ser com olhos impávidos, serenos e frios, numa avaliação constantemente incómoda. Estavas sentado num muro baixo e discreto, aguardando funções, e olhando-me de modo banal, tão banal que nem recordas esse momento. E o meu peito todo enrolado nele próprio, todo desarrumado na sua torácica caixa, implorando que tal par de olhos rasgados me largasse de uma vez só.
(…)
A partir daí foi só uma repetição deste processo, a tua confiança avassaladora sobre mim, avaliando o meu ser ao milímetro, sem pudor nem escrúpulos, e a minha indiferença teatral, disfarçando extremamente mal o incómodo que os teus olhos causavam. O tempo foi correndo e o desconforto transformou-se numa fonte de saborosa inquietação, fonte doce e de aprazível perdição. O toque das tuas mãos na minha pele, que outrora fora cuidado e muito pensado, passou a ser inusitadamente impertinente e arrepiante, intruso nos meus poros que queriam a todo o custo pertencer-te. A voz anteriormente cordial e politicamente correcta passou a abrir-se em rasgos de risos francos e verdades soltas sem receio das consequências. Os olhos avaliadores ignoraram essa condição e passaram a irradiar ternura, veracidade, pureza de alma. A pertinência da tua presença onde eu estivesse era cada vez mais evidente e a certeza do meu gargalhar a embalar as tuas histórias era cada vez mais óbvia. A derradeira prova, porém, deu-se um ano depois daquele primeiro (de muitos) apertos cardíacos, quando o teu perfume envolveu a minha alma até ao seu âmago e eu percebi que estava apaixonada. E não me refiro apenas ao perfume que sai do teu frasquinho de vidro azul, mas ao perfume da tua roupa lavada, ao bom cheiro do teu hálito fresco, à fragrância do sabão que perdura todo o dia no teu corpo.
(…)
Um ano e meio depois o coração continua a apertar-se como daquela primeira vez. Acontece sempre que te revejo, que te reencontro, que te abraço e te sinto os músculos tensos de saudade, que te inalo para dentro da minha alma repleta de um amor antigo, que te entrego os meus lábios desejosos da pele macia do teu rosto inteiro. Eu nunca teria dito, nem confirmado, que desde aquele primeiro momento olhos nos olhos tudo se desenrolaria qual história de Hollywood entre os dois de nós. Deixo cair uma lágrima fugidia. Tenho saudades tuas e um coração dependente do teu abraço quente. Bastava-me a tua pessoa, aqui, agora, para me alimentar do amor crescente que nos liga os passos, todos os dias. Até ao fim de tudo.